Crônica Tribuna

Uma noite cigana na Espanha

 

Quem assina o ‘Reza a Lenda’ da vez é Cláudio Sena, redator publicitário e professor universitário, que conta uma crônica sobre uma noite Gitana-Andaluza

 

em Reza a Lenda |16/05/2013 – 10:26
Por Cláudio Sena*
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Reza a lenda que este espaço costuma ser reservado às histórias que privilegiam o humor. Não sei se o que vou contar agora vai pôr um sorriso na sua cara ou uma pulga atrás da orelha.

Antes de partir mais uma vez ao Velho Mundo, enviei um e-mail a uma amiga pedindo dicas e fui surpreendido com um “Segue o acaso. Ele também é bom um guia”. Resolvi colocar a sugestão em prática em quase toda a viagem. Desta vez, sozinho. Na mala, o terço comprado em Canindé que me acompanha em todos os deslocamentos arriscados. Na cabeça, o inesperado e a condição de viver o que me fosse sugerido pelo destino nos próximos 30 dias. Assim vivenciei histórias que, de tão malucas, não fazem sentido serem reproduzidas por palavras. Mas vou tentar contar uma delas.

Ao cruzar a Andaluzia de ônibus, eu e meu amigo Zé resolvemos conhecer a famosa Alhambra, em Granada (Espanha) e dormir uma noite na cidade. O monumento é mesmo surpreendente. Mas quando pensei ter gasto toda minha cota de surpresa, a noite chegou.

Fomos jantar em Albaicín, um bairro no alto de uma colina, cheio de restaurantes sensacionais. Escolhemos o nosso. Zé, atento como de costume, pescou a conversa da mesa ao lado. Reza a lenda que o garçom, aparentemente cigano, passava orientações a um casal, uma basca e um parisiense, pelo o que me lembro. Ele indicava o caminho de uma casa de Flamenco autêntica, dirigida por ciganos e, claro, no bairro cigano de Sacromonte, ao lado de Albaicín. Nos convidamos para acompanhar o casal, que topou e até disse que assim seria “mais seguro”.

Fomos. Andando pelas ruas, cruzando os bairros até encontrar o Bulería, um bar dentro de uma caverna com um desenho de uma cigana estampado na rocha e de frente para a Alhambra iluminada. A partir daqui segue uma sequência de eventos inclassificáveis.

Entramos no Bulería. Pedimos cerveja. Não vendia cerveja. Pedimos vinho. Nada de vinho. O garçom e dono do bar aponta para o que tem: 4 garrafas – 3 conhaques e 1 whisky. Melhor whisky, mais “confiável” pela marca (mais ou menos) conhecida.

Na parede, à altura da foto referente à santidade, Paco de Lucía e Camarón de la Isla. Olhamos para o balcão e vimos um velho que aquecia os dedos na cafeteira (?). Entramos no cubículo ao fundo da caverna. Sentamos e esperamos. Ao nosso lado, mais uns dois ou três ciganos, um casal tímido e duas madrilenas, estudantes de Flamenco. O velho dos dedos aquecidos senta-se e começa a tocar o autêntico flamenco dedilhado (explicado os dedos na cafeteira). De fazer chorar. Entre uma música e outra, gritos e goles de conhaque.

Após uma ou duas horas, a caverna é invadida por ciganos mais jovens, arrumadinhos, com roupa da Zara, mas ciganos. O Flamenco muda. Acelera. Mas continua Flamenco. Era a tal da Bulería. Camarón baixa no jovem do violão e menino interpreta uma música que é cantata em uníssono por todos da caverna. Menos por mim, ainda sem entender.

“Yo soy gitano y vengo a tu casamiento. A partirme la camisa que tengo”. Zé, como bom anfitrião e depois de 6 anos de Espanha e de casamento com uma espanhola, explica ao pé do meu ouvido: “Quando o homem dança flamenco de modo muito intenso, entra num transe, meio que perde o controle e rasga a camisa, os botões saltam etc e tal.” Choquei. Depois de mais algumas horas, fomos todos educadamente convidados a nos retirar do bar com o sinal dado pelo dono de estabelecimento: a distribuição de copos de plásticos e um “Muchas gracias!”.

Descemos todos a colina, a cantar e beber as sobras, até que o grupo de ciganos que nos acompanhava desapareceu em um dos becos de Granada.

Para alguns, mais uma noite como outra qualquer. Para outros (eu), o improvável e o inacreditável. Para todos uma noite Gitana-Andaluza.

No outro dia de manhã, o papo com Zé foi confuso: “Amigo, você que estava comigo, me confirma se foi verdade”. Ele responde, após a pausa para coçar a cabeça e soltar a fumaça do cigarro: “Eu não sei não. Já ia te perguntar isso, bicho.”

 

 

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